Os avanços de Inteligência Artificial tomaram conta de quase todos os setores, e o entretenimento não ficou de fora. Na última passagem pela Índia, Ted Sarandos abriu o jogo sobre o papel dessa tecnologia nos estúdios Netflix, destacando economias milionárias, mas também reconhecendo um obstáculo crucial: a falta de humanidade nas narrativas criadas por algoritmos.
Em um bate-papo repleto de detalhes raros, o executivo mostrou entusiasmo com ferramentas já aplicadas em cerca de 300 produções, porém soou cético quanto a filmes ou séries inteiramente geradas por IA. A seguir, entendemos por que o streaming aposta na tecnologia como suporte — e não substituição — para roteiristas, diretores e elenco.
Como a IA já está economizando milhões nos bastidores
O problema das refilmagens
Produções de grande porte costumam desperdiçar até 20% do orçamento em refilmagens. Reconstruir cenários, reagendar atores e reintegrar equipes eleva custos e gera atrasos que se refletem em toda a cadeia de distribuição do streaming.
Sarandos explicou que, ao reduzir esse gargalo, a empresa consegue reinvestir dinheiro diretamente na tela. Mais cenas de ação, efeitos visuais de ponta e cronogramas mais enxutos são resultados tangíveis que alimentam a maratona do assinante.
Interpositive: a ferramenta “faz-tudo” de Ben Affleck
Em parceria com Ben Affleck, a plataforma adquiriu o Interpositive, algoritmo treinado exclusivamente com os dados de cada produção. O software recria tomadas de transição e pequenos ajustes de continuidade sem exigir retorno ao set, funcionando como um efeito visual invisível para o espectador.
Diferentemente de IA genérica, o Interpositive é “formado em cinema”, nas palavras de Sarandos. Isso garante que luz, enquadramento e atuação digital não destoem do material original, preservando a imersão da trama.
Por que a Netflix ainda não confia na IA para contar histórias
A queda de 70% de engajamento na China
O executivo citou um case de micro-dramas chineses que trocaram roteiristas por algoritmos e viram o público despencar 70%. Segundo ele, quem liga a TV busca conexão emocional ou escapismo, algo que a IA ainda não sabe reproduzir com autenticidade.
Imagem: ALEX WROBLEWSKI
Essa “falta de humanidade” faz com que diálogos, camadas de personagem e sutilezas culturais saiam genéricos. Sarandos não descarta evolução futura, mas deixou claro que, por enquanto, histórias 100% sintéticas não sobrevivem no catálogo.
Ferramenta, não moda passageira
Ao aconselhar outros CEOs, o Co-CEO provocou empresas que correm para exibir projetos de IA como troféu. O foco, diz ele, deve ser identificar onde a tecnologia avança objetivos de negócio, não apenas seguir a tendência do momento.
No contexto Netflix, isso significa usar algoritmos para acelerar pré-visualização, organizar o vasto acervo e aprimorar recomendações personalizadas, sem abdicar do olhar humano que já rendeu sucessos como “Stranger Things” e “Round 6”.
Se o futuro ainda é incerto, o presente mostra que algoritmos podem poupar horas de set e milhões de dólares, mas nenhum deles, por enquanto, substitui o coração de um bom roteirista — percepção que até o analítico Sarandos faz questão de defender, como destacou em entrevista monitorada por dicasflix.
