Engavetado por quase três anos, “Coiote vs. Acme” finalmente chegará aos cinemas em 28 de agosto. A produção, que mistura atores reais e animação dos clássicos Looney Tunes, foi cancelada pela Warner Bros. em 2023 para virar abatimento fiscal, mas sobreviveu graças a uma campanha ruidosa de cineastas e fãs, sendo resgatada pela distribuidora independente Ketchup Entertainment.
O ator Will Forte, protagonista do longa, contou à Rolling Stone como descobriu que o estúdio havia jogado o filme na gaveta um dia depois de uma sessão teste elogiada. “Foi como se um bigorna caísse do céu”, relembra. A frustração virou indignação geral dentro da equipe, que via no projeto um forte candidato a agradar famílias e apreciadores de humor mais ácido, marca registrada dos desenhos originais.
Do funeral à ressurreição
Dirigido por Dave Green (“As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras”), o longa foi rodado em 2022 e testado no ano seguinte com avaliações internas consideradas excelentes. Mesmo assim, em novembro de 2023, a Warner Bros. decidiu cancelar o lançamento para aproveitar incentivos fiscais, repetindo a estratégia usada em “Batgirl”. A equipe, já com passagens compradas para uma suposta première, assistiu ao que chamou de “sessão funeral”, cientes de que o público talvez nunca veria o que estavam vendo na tela.
A repercussão negativa foi imediata. Produtores, animadores e nomes de peso da indústria, como os cineastas Phil Lord e Christopher Miller, usaram redes sociais e entrevistas para pressionar o estúdio. A Warner chegou a prometer que buscaria um novo distribuidor, mas somente em março de 2025 a Ketchup Entertainment assumiu oficialmente a empreitada. O contrato prevê estreia nos cinemas norte-americanos em 28 de agosto de 2026, sem confirmação de data para o Brasil, mas com expectativa de chegada simultânea ou logo após.
Trama: o dia em que Coiote levou a Acme aos tribunais
Inspirado em artigo homônimo publicado na revista The New Yorker, o roteiro mostra Wile E. Coyote, cansado dos dispositivos defeituosos da Acme Corporation, contratando o advogado Kevin Avery (Will Forte) para processar a empresa. John Cena vive o representante jurídico da corporação e Lana Condor interpreta a sobrinha do protagonista, que também atua como assistente no caso.
Assim como em “Uma Cilada para Roger Rabbit”, o filme combina cenários e objetos reais com personagens animados, colocando figuras icônicas como Pernalonga e Patolino contracenando diretamente com os atores. Forte descreve a experiência como “emocionante e surreal”, destacando o uso de um boneco em tamanho real do Coiote durante os ensaios para facilitar a interação no set.
Humor familiar com toque subversivo
Embora seja classificado como comédia para todas as idades, “Coiote vs. Acme” aborda temas mais profundos, como fracasso, ganância corporativa e perseverança. Forte ressalta que o espírito contestador dos desenhos sempre esteve presente. “Looney Tunes sempre foi subversivo. Quem aprovou o filme leu esse roteiro antes”, cutuca, em alusão à contradição do estúdio ter sancionado a produção para depois descartá-la.
Para o ator, o recuo repentino da Warner Bros. levanta dúvidas estratégicas. “Se você não aposta em um longa que já testa bem e usa uma IP tão forte, em que vai apostar?”, questiona. A fala ecoa críticas recorrentes à política de cancelamentos fiscais, vista por profissionais da área como ameaça à criatividade e à confiança entre artistas e grandes conglomerados.
Produção turbulenta, mas de clima leve
As filmagens enfrentaram desafios além dos cálculos de efeitos especiais. Uma tempestade de areia interrompeu o cronograma e o próprio Forte pegou Covid na segunda semana, obrigando a reorganização do set. Mesmo assim, o diretor Dave Green manteve a calma, segundo o elenco. A equipe técnica também precisou planejar cenas que misturam destruição física e animação, como a queda de uma pedra gigante sobre um carro real, coreografada em múltiplos ângulos para integrar depois os elementos digitais.
Imagem: J Blistein
Sobre contracenar com um personagem mudo, Forte lembra que sua experiência em dublagem ajudou. O ator Dave Barclay, lendário marionetista de “Star Wars” e “Little Shop of Horrors”, manipulava o boneco do Coiote nos ensaios. Depois que o modelo era removido, marcava-se o ponto de visão com uma bola de tênis. “Quando assisti ao corte pronto, foi como ver tudo pela primeira vez”, conta.
O impacto na carreira de Will Forte
Conhecido por papéis repletos de humor adulto, como em “MacGruber”, o comediante vê no novo filme uma chance de dialogar com o público infantil sem abrir mão de inteligência. Ele revela que aceitar projetos voltados à família, como participações no programa “Studio C”, o ajudou a desenvolver piadas limpas e eficazes. “É um lembrete de que não precisamos de muletas de humor sujo o tempo todo”, afirma.
Forte também trabalha em uma série de esquetes comandada por sua mãe, Patti Forte, e a amiga dela, Carol Park. Descrito como “maluco” pelo ator, o projeto está em fase de montagem e busca emissora ou streaming interessados. A aposta é que os figurinos das duas personagens virem fantasia de Halloween, algo que o ator considera um indicativo de sucesso cultural.
Expectativa do mercado e próximos passos
“Coiote vs. Acme” chega num momento em que grandes estúdios reavaliam estratégias de conteúdo e corte de custos. A recepção comercial e crítica do longa pode funcionar como termômetro para avaliar o apetite do público por projetos que resgatam franquias clássicas sem abandonar ousadia temática. Caso o desempenho confirme o boca a boca positivo das sessões testes, a produção pode ganhar sequência ou impulsionar novas histórias híbridas dentro do catálogo Looney Tunes.
No Brasil, a distribuição ainda não foi detalhada. Tradicionalmente, a Ketchup Entertainment licencia seus títulos para empresas regionais, mas também negocia acordos diretos com plataformas digitais. Enquanto a confirmação não vem, fãs podem esperar novidades durante a Comic-Con de San Diego ou em eventos de exibição de cinema infantil, onde materiais promocionais devem circular.
Por que isso importa
O caso ilustra a tensão crescente entre decisões financeiras de conglomerados e o valor artístico de produções já concluídas, assunto que preocupa roteiristas, atores e técnicos após greves recentes em Hollywood. A volta de “Coiote vs. Acme” às telonas reforça que mobilização coletiva pode reverter cancelamentos, além de reiterar a relevância contínua dos personagens de Chuck Jones para novas gerações.
Para o público, a estreia representa a chance de ver um experimento que mistura nostalgia, crítica social e tecnologia de ponta. Para a indústria, é um lembrete de que a linha entre arte e planilha nem sempre agrada a plateia quando pendendo demais para os números.
Saiba mais
- “Coiote vs. Acme” estreia em 28 de agosto de 2026 nos Estados Unidos.
- O elenco principal traz Will Forte, John Cena e Lana Condor, com participações de Pernalonga, Patolino e outros clássicos.
- A Ketchup Entertainment cuida da distribuição global após adquirir os direitos em 2025.
- Não há, até o momento, confirmação oficial de data ou formato de lançamento no Brasil.
