O veterano Ridley Scott, de 88 anos, surpreende ao trocar seus épicos grandiosos por uma história intimista em The Dog Stars, adaptação do romance homônimo de Peter Heller que já conquista a crítica internacional. Ambientado num Colorado devastado por uma pandemia de gripe, o longa acompanha Hig (Jacob Elordi) e seu cão Jasper em uma rotina de voos solitários em busca de mantimentos, enquanto lidam com o luto e a ameaça constante de saqueadores.
A combinação de atmosfera pós-apocalíptica, tom de western e interpretação contida de Elordi fez veículos como a Rolling Stone classificar o filme como o “momento Clint Eastwood” do ator de Euphoria. Para o público brasileiro, a produção se destaca não só pelo elenco estrelado, que ainda inclui Josh Brolin, Guy Pearce e Margaret Qualley, mas pelo inusitado lado sensível de Scott, conhecido por expansões de mundo como Blade Runner e Gladiador.
Do best-seller de Peter Heller às telas
Lançado em 2012, o livro The Dog Stars ganhou notoriedade ao misturar temas de sobrevivência, perda e esperança em um cenário de catástrofe sanitária global. A Fox comprou os direitos de adaptação ainda na mesma década, mas o projeto só deslanchou quando a 20th Century Studios convidou Ridley Scott para dirigir e produzir. Em vez de enfatizar explosões ou panoramas destruídos, o cineasta optou por honrar o aspecto contemplativo da obra literária, priorizando o arco emocional do protagonista.
Parte das filmagens ocorreu em locações reais próximas a Erie, no Colorado, onde uma pista de pouso abandonada foi transformada no refúgio de Hig. Esse cenário, segundo equipe de design de produção, foi mantido com mínima interferência digital para reforçar o senso de realismo. A fotografia também evita filtros futuristas, investindo em luz natural que realça a beleza agreste das Montanhas Rochosas.
Enredo: a solidão paira sobre o céu
Hig, ex-mecânico na casa dos 20 e poucos anos, sobrevive voando em um pequeno Cessna que lhe permite patrulhar ruínas de Denver em busca de recursos. Ao lado do cão Jasper e do temperamental ex-fuzileiro Bangley (Josh Brolin), ele mantém uma convivência frágil, interrompida por ataques de estranhos que vagam pelo interior. A rotina muda quando, após um pouso forçado, Hig conhece um fazendeiro desconfiado (Guy Pearce) e sua filha Cima (Margaret Qualley). O contato reacende a possibilidade de afeto, mas também expõe cicatrizes que vão além da perda da esposa antes da pandemia.
Com poucas falas e muitos silêncios, o filme foca na mente de um homem que, mesmo cercado por pessoas, permanece isolado em seus traumas. A aeronave, que Hig às vezes deixa planar sem motor em direção a uma montanha simbólica, vira metáfora de sua vontade velada de desistir. Para Scott, a aposta foi “fazer o público ouvir o que o personagem não diz”, conforme descreveu em entrevistas promocionais ao referir-se ao estilo contido da narrativa.
Jacob Elordi assume protagonismo silencioso
Aos 29 anos, Jacob Elordi já havia demonstrado intensidade dramática na série Euphoria e em obras como Priscilla. Em The Dog Stars, ele abraça uma abordagem minimalista, evocando a aura de heróis do western clássico, com postura rígida e olhar que oscila entre serenidade e tormento. Críticos apontam que o ator equilibra vulnerabilidade e firmeza, evitando caricaturas de “anti-herói taciturno”.
O contraste com Josh Brolin, que interpreta Bangley como uma extensão rude de personagens como Thanos ou Llewelyn Moss, adiciona eletricidade às cenas de confronto. Enquanto Brolin encarna o sobrevivencialista que prospera no caos, Elordi representa o homem que ainda busca razões para acreditar no futuro, mesmo que isso signifique atravessar as montanhas em busca de um frágil sinal de rádio vindo de Grand Junction.
Scott troca a ficção científica por um western disfarçado
Embora ambientado após um colapso pandêmico, The Dog Stars não abraça elementos futuristas. O diretor descreve o longa como “um filme de fronteira”, aproximando-se de obras de John Ford, com direito a baile comunitário entre sobreviventes e invasores caracterizados como guerreiros indígenas em uma das batalhas. Essa escolha estética ressalta a ideia de que, diante da ruína, a sociedade retorna a dinâmicas de Velho Oeste, regidas por lei do mais forte, disputas territoriais e necessidade de formar alianças.
Imagem: David Fear
As sequências de cerco, divididas em dois atos próximos, entregam a ação que se espera de um título de Ridley Scott. No entanto, o clímax chega sem grandiloquência explosiva, priorizando consequências emocionais. Segundo comentários divulgados pelo estúdio, a intenção era lembrar que, em tempos de crise, a verdadeira luta é preservar a humanidade, não apenas sobreviver.
Temas contemporâneos e possíveis leituras políticas
A pandemia ficcional que dizimou 95% da população inevitavelmente dialoga com memórias recentes da Covid-19. O roteiro, adaptado por Drew Goddard, insere menções pontuais a escassez de vacinas e à negligência governamental, mas evita discursos diretos, permitindo ao público formar sua própria interpretação. Essa ambiguidade também se aplica a Bangley, que chama estranhos de “baratas” enquanto se vê obrigado a cooperar com comunidades menonitas para manter o abastecimento.
Críticos observam que o longa pode ser reivindicado por diferentes espectros ideológicos: de um lado, defensores de autodefesa armada encontrarão eco; de outro, espectadores sensíveis à solidariedade coletiva notarão o subtexto humanista. Tal dualidade reforça a tradição dos faroestes, que frequentemente espelham tensões sociais de sua época.
Estreia, distribuição e expectativas no Brasil
The Dog Stars é distribuído pela 20th Century Studios e já recebeu sessões para a imprensa nos Estados Unidos, com previsão de estreia comercial local para o último trimestre de 2026. Até o momento, não há data confirmada para lançamento nos cinemas brasileiros nem informação oficial sobre chegada direta ao streaming de propriedade da Disney, controladora do estúdio.
O histórico recente indica que dramas adultos do selo costumam desembarcar no Star+ algumas semanas após a exibição em tela grande, mas a estratégia pode variar conforme desempenho internacional. Fontes próximas à distribuidora ouvidas por veículos norte-americanos afirmam que a campanha de marketing vai reforçar a dupla Elordi-Brolin para atrair públicos de diferentes faixas etárias.
Por que vale colocar o filme no radar
Para quem segue a carreira de Ridley Scott, The Dog Stars representa um estudo de personagem raro em sua filmografia, que costuma privilegiar ambição épica. Já os fãs de Jacob Elordi encontram aqui a consolidação de sua imagem como leading man de cinema, distante das polêmicas adolescentes de Euphoria. Além disso, a mistura de suspense, romance contido e reflexões sobre luto oferece uma alternativa às produções pós-apocalípticas focadas somente em ação.
Seja qual for a leitura que o público faça, o longa reforça a máxima de que boas histórias não dependem apenas da escala de destruição, mas da força de sentimentos universais como saudade, esperança e amizade entre espécies. Assim, The Dog Stars aterrissa como lembrança de que, mesmo diante do pior cenário, ainda buscamos conexão e novos começos.
