Liz Meriwether encara a ressaca do explosivo finale de Furious

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O suspense jogou o público na beira do sofá, mas a pessoa mais exausta da sala parece ser justamente quem escreveu cada virada: Liz Meriwether só conseguiu respirar quando o Furious temporada 1 finale enfim estreou no Hulu. Ela torcia pela recepção, claro, mas não imaginava a avalanche de comentários que acordaria os trending topics duas semanas seguidas. “Eu só entendi que a série tinha virado assunto quando estávamos na terceira sessão de roteiro da segunda temporada”, contou a showrunner, ainda meio incrédula.

O susto é compreensível. Conhecida pela leveza de New Girl e pela ironia macabra de The Dropout, a roteirista entrou em território novo: um procedural-thriller sobre violência sexual, corrupção policial e a caçada a uma serial killer sobrevivente de tráfico humano. Nada leve. Mesmo assim, a mistura de tensão claustrofóbica e humor ácido encontrou audiência fiel desde o piloto, impulsionada pela atuação feroz de Emmy Rossum como a agente Alice Black.

Finale de tirar o fôlego e ossos expostos

No oitavo episódio, Rossum divide a cena central com Lola Petticrew, a Catherine que sangra raiva, tristeza e precisão militar. A sequência inteira se passa na mansão de Jay Easton, bilionário que comandava um esquema de exploração sexual durante anos. Meriwether admitiu que passou tanto tempo revisando o roteiro que se sentia ela própria trancada na casa do vilão. A tensão dominou o set:

  • A filmagem do confronto entre Alice, Catherine e a filha do magnata aconteceu em um único dia.
  • Jake Lacy, o ex-noivo violento da protagonista, só aparece por vídeo no episódio, mas seu fantasma paira sobre cada decisão de Alice.
  • Toda a montagem privilegia closes fechados, quase sufocantes, para reforçar o peso psicológico da cena.

Meriwether confessa que, nas raras pausas, se refugiava em vídeos de um pediatra francês massageando bebês até eles soltarem sonoros gases. “Era meu detox mental”, riu, sem pudor de revelar o escapismo pueril que salvou sua sanidade durante a pós-produção.

A espiral compartilhada de Alice e Catherine

A showrunner enxerga as duas personagens como espelhos rachados. Ambas vivenciaram terror real, só que escolheram respostas opostas. Catherine empilhou cadáveres para retomar o controle arrancado pela rede de tráfico. Alice, por outro lado, tentou enquadrar o caos dentro da lei federal. Quando elas se encaram, diz Meriwether, “é a única hora em que cada uma baixa a guarda”. Essa dualidade explica o fascínio do público: heroína e antagonista falam a mesma língua do trauma.

O humor rude que mantém a humanidade viva

Quem vê a risada em momentos improváveis pode estranhar, mas a autora jura que não é concessão comercial. Antes de escrever, ela passou horas com agentes do FBI que investigam crimes sexuais. Todas mulheres, todas “inacreditavelmente engraçadas”, definidas pela própria criadora. O humor de guilhotina virou mecanismo de sobrevivência, então a série replica o expediente sem pedir desculpas.

Essa veia cômica não dilui o horror. Pelo contrário. Quando o espectador solta um riso rápido, o roteiro cutuca logo em seguida com uma revelação dolorosa. A ruptura de tom abre espaço para o desconforto real, estratégia que Meriwether já exercitara em Dying for Sex, dramedy indicada ao Emmy sobre uma paciente terminal que explora a sexualidade nos últimos anos de vida.

Os bebês peidando viraram musa

Entre escaletas, reescritas e feedback do canal, a roteirista colocava no celular o mesmo vídeo de 30 segundos: um recém-nascido, fraldas ao vento, massageado até estourar um “pum” de desenho animado. A imagem é tão absurda quanto eficaz para esvaziar a cabeça depois de páginas repletas de abuso, corrupção e decadência moral. “Eu precisava ir para outro planeta cinco minutos por dia”, contou, sem disfarçar o cansaço bem-humorado.

Construindo a verdade com vozes reais

Para evitar clichês de vítima “perfeita”, a produção chamou sobreviventes de tráfico e ex-agentes para consultoria. Não foi cerimônia simbólica: várias falas inteiras de Alice nasceram desses encontros. A criadora menciona, por exemplo, o impulso autodestrutivo que continua rondando mulheres que já escaparam da violência doméstica. Era importante mostrar uma protagonista que vive a ressaca do trauma, não somente o momento da fuga.

Com esse cuidado, Furious se tornou comentário urgente sobre a lentidão — e, muitas vezes, a cumplicidade — do sistema de justiça em casos de violência contra mulheres. Jay Easton só prosperou porque policiais, empresários e até parentes preferiram ganhar dinheiro ou status em vez de denunciar. O roteiro enterra o espectador nesse mar de omissão, mas sem transformar a história em sermão. O rosto humano está sempre no primeiro plano da câmera.

Temporada 2 já na estaca zero, e isso é libertador

Diferente de showrunners que colam na parede o mapa completo de cinco anos, Meriwether avança no escuro. Ela não tinha a menor ideia de onde terminaria a temporada 1 até o quinto rascunho do roteiro. O risco — confessa — é escrever personagens encurralados e depois suar sangue para tirá-los dali. A recompensa é surpreender o público e a própria equipe.

Na nova sala de roteiristas, três semanas de discussões apontam para um caso inédito, ainda sem detalhes revelados. A criadora apenas admite duas certezas:

  • O tema continua orbitando crimes contra mulheres, área em que o noticiário, infelizmente, não perde a atualidade.
  • A relação entre Alice e Catherine permanece fundamental, mas sob nova dinâmica depois dos eventos do finale.

Ninguém fala em roteiros finalizados, nem em quantidade de episódios. O lema é observar o debate social do presente e reagir quase em tempo real, assumindo a série como organismo vivo. Essa agilidade, segundo Meriwether, foi parte do DNA que fez a temporada 1 soar “tão 2026” para quem maratonou logo nos primeiros dias.

Por que a ausência de um plano pode ser vantagem

Escrever sem rede causa frio na barriga, mas Meriwether gosta da sensação. Quando o roteirista se surpreende, argumenta, o espectador também se sente sem chão. Ela admite inveja de colegas metódicos, mas não troca a adrenalina que move a sala de Furious. “O trabalho fica fresco”, resume, sem firulas.

A engrenagem por trás do fenômeno

Quem acompanha a carreira de Liz Meriwether percebe que o sucesso nunca seguiu fórmula única. New Girl dormia e acordava na sala dos roteiristas de rede aberta, ritmo industrial. The Dropout exigiu investigação jornalística sobre Elizabeth Holmes. Dying for Sex misturou confissão íntima e humor grotesco. Furious agora soma obsessão investigativa, drama psicológico e pitadas de stand-up em velório. A criadora parece confortável em não caber numa prateleira só. Essa elasticidade explica parte da surpresa que ela própria sente ao ver o público comprando a nova empreitada.

Se depender da audiência engajada e das conversas que ainda surgem sobre o retrato nu e cru de violência sistêmica, a segunda temporada encontrará terreno fértil. Até lá, Meriwether continuará revisitando sessões pesadas e, vez ou outra, trocando e-mails com o pediatra francês que faz bebês rirem à base de massagem abdominal. Um respiro singelo até que a próxima história a devore por completo.

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Me chamo Riandson Nascimento e sou redator do DicasFlix, especializado em filmes, séries, streaming e entretenimento. Produzo conteúdos informativos sobre lançamentos, novidades e tendências que movimentam o universo audiovisual, acompanhando de perto as principais plataformas para trazer informação atualizada. Meu objetivo é ajudar você a decidir o que assistir sem perder as novidades mais relevantes.